Manual do Quadrinista Mirim

Vários Quadrinistas depois da CCXP 2016

Ou “Como sua mesa nas convenções de quadrinhos possui mais detalhes que aparenta”

Texto escrito por Brão Barbosa, com contribuições de Luciano Salles, Gustavo Borges, Eric Peleias, Pedro Balboni, Digo Freitas, Vencys Lao, Herbert Berbert e Estevão Ribeiro.

O primeiro evento de quadrinhos que fui para expor minhas histórias foi o FIQ/2011. Lembro do misto de pavor, insegurança e timidez que me abatia toda vez que um possível leitor se aproximava das minhas HQs. De lá pra cá venho buscando estratégias para driblar esses pormenores e ao perceber que vários colegas também passam por isso, comecei a conversar com eles e chegamos a algumas conclusões que nos trazem resultados.

Este texto é tanto uma forma de compartilhar essas questões para quadrinistas de primeira viagem como um convite ao diálogo aos que já passaram e passam por essa situação. Abaixo estão as minhas sugestões, que estão longe de serem verdades absolutas:

  • Está lançando seu primeiro trabalho? As pessoas precisam te descobrir, certo? Então por que não deixar o arquivo digital (PDF, CBR, MOBI) disponível pra download gratuitamente? “Pô, Brão, mas eu preciso valorizar meu trabalho” Mas é claro! Só que aí temos alguns pontos a respeito que tenho que agradecer muito o Fabio Yabu por ter aberto meus olhos a respeito:
    • Você não vai ficar rico com sua primeira HQ (infelizmente, é provável que nem com a segunda, terceira, ou…). Por que não abrir mão de alguns trocados por feedback e construção de público?
    • Aliás, acredito que disponibilizar os arquivos digitais se mostrou uma excelente forma de divulgação. Não são poucos os leitores que chegam à minha mesa em eventos dizendo “Cara, eu li suas histórias em PDF. Agora quero levar os impressos”. 🙂
  • Divulgação prévia. Divulgue muito. Como disse, disponibilizar o arquivo conta e conta muito. Mas use suas redes sociais e envie material para os veículos. UniversoHQ, Pipoca e Nanquim, Quadrim e muitos outros costumam fazer listas das obras que serão lançadas nos eventos. De preferência, envie um exemplar pra eles e/ou entregue no evento para os jornalistas. Você corre o risco de receber uma resenha do seu trabalho e isso é excelente pra você.
  • Divulgação no próprio evento é muito importante também. Mas é diferente. Muitas vezes a pessoa se interessa pelo seu trabalho mas não pode levar no momento, então tenha sempre em mãos cartões, marcadores de página e outros materiais que possam conter seus contatos.
  • Defina o seu objetivo com o evento. Você pretende fazer contatos, assistir palestras, participar de workshops ou vender HQs? Todos esses objetivos são válidos, mas você dificilmente conseguirá realizar com excelência todos eles numa mesma ocasião. Se o seu objetivo é vender, evite sair da sua mesa (levar um lanche e uma garrafa para água ajudam muito nisso, mas NUNCA coma enquanto estiver na mesa). De preferência, fique em pé e com um sorriso no rosto. Esteja disposto a interagir mas sem sufocar a pessoa (esse equilíbrio só é encontrado através de tentativa e erro).
  • Uma dúvida muito comum para o quadrinista de primeira viagem (e até de muitas viagens) é a quantidade de exemplares levar para o evento. Se seu quadrinho esgotar, vai ficar aquele sentimento de “podia ter trazido mais”, se sobrar, fica aquela frustração de ter que voltar com o material pra casa. Mas conversando com vários colegas percebi que a média de vendas para o primeiro evento girava em torno de 100 exemplares vendidos em convenções grandes como FIQ, CCXP e Bienal de Quadrinhos de Curitiba. Se for um evento menor, essa conta vai cair bem.
  • Coloque seu nome em destaque no banner. Ele é a sua bandeira. Use também a parte frontal da mesa. O visitante que te procurar provavelmente reconhecerá seu nome mais facilmente que seu rosto.
  • O visitante da convenção tem uma variedade imensa de títulos para analisar e decidir o que mais o interessa. E fica difícil decidir se ele só tem acesso à parte gráfica da obra. Por isso, é essencial que você tenha uma sinopse curta e afiada sobre suas histórias. Conheça sua história e tire proveito das características dela. O Pedro Balboni tem uma forma de vender seus livros de tiras com um simpático desafio ao possível leitor. Ele entrega o livro na mão da pessoa e pede para que ela abra em qualquer página e solta: “garanto que você vá gostar” nunca vi ninguém recusar a este desafio e nem a se contentar a ler somente uma tira. Eu, como não tenho tiras, uso um script decorado dos meus títulos: “Jesus Rocks” conta a história de Jesus se ele fosse um rockstar. Ele monta uma banda e eles vão tocar no Rock In Rio Jordão e fazem cover de Metallica, Black Sabbath, Ramones, Queen, Beatles… E essas bandas e músicas vão fazendo parte da história. “Feliz Aniversário, Minha Amada” é um triângulo amoroso bizarro. A história conta os planos do marido pra se livrar do amante. E foi indicada ao HQMix como melhor publicação independente. Eu resumo a história com uma frase curta: “a história de Jesus se ele fosse um rockstar” e “um triângulo amoroso bizarro”. E acrescento poucos detalhes essenciais que acredito que vão aguçar a curiosidade do possível leitor. Essa estratégia me trouxe números de venda bem melhores e, como é fácil de decorar, quem divide a mesa comigo memoriza fácil e consegue oferecer quando eu preciso me ausentar da mesa. O Eric Peleias que o diga. Como ele também é um seguidor dessa estratégia, sempre que dividimos a mesa ele sabe vender meus gibis e eu os dele.
  • Se você está dividindo a mesa com alguém, trabalhe em equipe. A venda de um, pode impulsionar a do outro. E sua mesa fica ativa mesmo quando você recebe o “chamado da natureza”. Por isso, procurem ter sintonia. Não apresente seu gibi se o visitante está interessado no gibi do amiguinho ao lado (mesmo que seja seu vizinho que não está dividindo a mesa com você) Espere o momento certo de iniciar a abordagem.
  • Saiba com quem dividir a mesa. O ideal é dividir com alguém que tenha um trabalho próximo do seu, ou pelo menos que atenda públicos parecidos. Se isso acontecer, a chance de uma pessoa de interessar pelos trabalhos da mesa como um todo são maiores e existe a possibilidade dos dois fazerem uma venda em conjunto. Caso contrário, o público que você captar não se interessará pelo trabalho do seu colega e vice-versa. E como temos espaço limitado de frente de mesa, geralmente estará ocupado pela pessoa a qual o trabalho está sendo apresentado e impede outras pessoas de se aproximarem. Por exemplo, se seu colega de mesa tem um trabalho de graphic novels eróticas e o está apresentando a um leitor em potencial, você terá dificuldades de espaço físico para convidar uma outra pessoa para apresentar o seu trabalho de tiras de humor infantis. Pode ser que alguém se interesse por trabalhos antagônicos? Pode, mas a probabilidade é menor.
  • Se a pessoa mostrou interesse pelo seu trabalho, pergunte se você pode apresentá-lo. Lembra da sinopse acima? 😉 Muitas pessoas são tímidas e não se sentem muito confortáveis em se aproximar da mesa. Convide para que ela se aproxime. Deixe um exemplar disponível para ela folhear, deixe-a à vontade. Mas também, não force a pegada! Não vá empurrando os gibis pra ela.
  • Para que o possível leitor visualize melhor tudo o que você está oferecendo, capriche na exposição de todos os produtos de forma organizada na mesa. Não deixe vazia ao ponto de parecer que alguém esqueceu o gibi lá, nem coloque tudo de qualquer jeito de forma que seja difícil para ele focar em uma coisa específica. E sempre que possível, procure diferenciar da sua mesa das outras:
    Murilo Martins em atrás de sua mesa vendendo suas publicações em um evento de quadrinho
    O Murilo Martins certamente ganharia o HQMix de “mesa mais legal” todos os anos.
    A Luiza McAllister e o Thiago Lehmann trazem multidões para a mesa do 2Minds tanto pelo trabalho como pela apresentação dos produtos.
    Pense nesta organização até na hora de fazer a mala que servirá de estoque embaixo da mesa. Muito cuidado com o peso da mala caso o evento aconteça em outra cidade. Excesso de bagagem pode tirar boa parte do lucro das suas vendas.
  • Utilize a parte de baixo da mesa a seu favor.
    • Mantenha o estoque o mais organizado possível. Saiba onde está cada título para reposição.
    • Leve fitas adesivas, tesoura/estilete, toalha para forrar a mesa, carregadores de celular e da maquininha, barbante, adaptadores de tomada e extensão elétrica. Geralmente a organização só disponibiliza uma tomada por mesa e você não vai querer ter que revezar entre o carregamento do seu celular, da maquininha de cartão e os mesmos do seu colega de mesa.
    • Por falar nisso, não levar maquininha de cartão geralmente significa perder no mínimo 30% das vendas e esse número aumenta a cada ano.
  • Mantenha objetos de valores em locais seguros e o dinheiro sempre junto ao seu corpo. O público em geral é muito amigável, mas infelizmente é comum acontecerem furtos em locais com muitas pessoas. Não dê margem pra isso. Eu uso e sugiro um porta-notas. São mais discretos que pochetes, mais práticas que carteira e ainda tem compartimentos que separam notas maiores do troco. Por falar no troco, precifique com números redondos. E leve notas baixas para isso. Facilita sua vida e a do público.
  • Pense nos preços individuais e em conjunto. Meu exemplo particular: tenho um título a R$ 8 e um a R$ 12 para que juntos possam somar um número redondo (R$ 20). Se a venda em conjunto não aconteça, eu tenho cards baratos que muitas vezes funcionam como troco.
  • Mantenha um controle simples de entradas e saídas. Saiba quantos exemplares você está levando de cada título e vá tocando a cada venda para controlar no final.
  • Tenha certeza da grafia do nome do leitor que comprou a HQ antes de fazer a dedicatória. Nenhum “Filipe” vai querer um livro escrito “Felipe” nem a “Luiza” aceitará pagar pelo gibi da “Luisa”. Em muitos casos, é melhor escrever em um rascunho antes de assinar. Se meu pai passar na sua mesa, escreva “ANICETO” e confirme com ele antes. É eu sei. ¯\_(ツ)_/¯
  • Pense em como seu leitor vai transportar seu produto. Vende pôster? Não espere que ele traga um canudo ou uma pasta A3 de casa. Sua HQ tem um formato inovador em A2? Já pense nessa solução antes do evento. Na maioria dos casos, uma sacola resolve.
  • Seja sempre simpático e educado com todos. O funcionário da limpeza, a equipe do evento, os colegas quadrinistas e o público são igualmente importantes. É a coisa certa a se fazer. Além disso, uma cara feia da sua parte pode afastar um potencial leitor.
  • Procure controlar suas expectativas e ficar de olho para que não saiam do controle. Antes de ir para um evento, você fez um planejamento do que esperava para ele, certo? Ao longo do dia vá ajustando suas expectativas e seus esforços. Às vezes as vendas estão mais fracas e você pode querer libertar seu lado vendedor; às vezes não há nada que você possa fazer para melhorar a situação. Procure compreender o momento e saiba que cada evento é uma batalha de uma luta maior, que você mesmo escolheu lutar. Você não pode tudo, mas dê tudo o que puder de si. Sempre.
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