Print ou quadrinho? Ou os dois?

Dois personagens colando cartazes com os dizeres "proibido afixar cartazes". Um deles está com o pé dentro do balde de cola, o outro segura uma vassoura e o encara com raiva.

Print, pôster, cartaz, enfim. Independentemente da forma que você chame, a discussão sobre a venda deste material em eventos de quadrinhos tem se tornado frequente entre os autores.

Antecipo que a intenção deste texto não é trazer conclusões, mas ser um pontapé no debate. E é bom deixar claro também que esta reflexão não se aplica aos casos de prints autorais como por exemplo, o Vitor Cafaggi fazer um print do Valente, ou a Bianca Pinheiro do Bear. Mas sim de prints de figuras consagrados na cultura pop como super-heróis e personagens de filmes, séries, jogos, etc.

Enquanto um lado acredita que a longo prazo a cultura de vendas de prints em eventos pode matar a produção de quadrinhos, o outro lado não vê motivos para abrir mão de um material lucrativo em função de “romantismo”.

Explico: É notável o apelo que os chamados prints de fanarts, cartazes feitos com personagens da cultura pop, tem para com os visitantes dos eventos de quadrinhos. É comum vermos pessoas que preferem gastar algumas dezenas de reais em prints do que em quadrinhos. E enquanto alguns artistas procuram tirar proveito do movimento para fazer dinheiro, outros tem receio que a cultura da produção autoral se desmotive em função dessa prática.

“Não entendo exatamente o que os compradores dos prints estão atrás, já que é uma arte reproduzida, sem sequer uma aura de uma arte original, comissionada.”
Guilherme Kroll

 

“Eu tento fazer sempre prints de personagens que já estão em domínio público ou de imagens minhas mesmo. Mas também não acho absurdamente grave uma fanart.”
Rebeca Prado

 

“Acho algo normal, da mesma forma que cantores e bandas fazem cover por exemplo. Faz parte do crescimento do artista, de como ele se mostra para o publico e os possíveis contratantes.”
Herbert Berbert

 

“Eu fico incomodado quando a pessoa leva um print e não meu trabalho autoral. O foda que se o print não for uma fanart, dificilmente a pessoa leva.”
Vencys Lao

 

“Não temos como educar o consumidor a só comprar quadrinhos, o fato é que se negligenciarmos os prints, simplesmente vamos deixar de ganhar um dinheiro que é necessário para seguir em frente. Eu pessoalmente acho isso um purismo.”
Hiro Kawahara

E sobre o aspecto legal da coisa, é bom deixar claro como o mercado enxerga a coisa. Há o entendimento por parte da maioria dos eventos de quadrinhos em diferenciar a impressão da arte em papel e a aplicação em outros produtos.

Em entrevista à vigésima sexta edição do podcast Confins do Universo no exato minuto 60, Ivan Freitas, um dos organizadores da CCXP, diz sobre produtos:
“Não pode ter pirataria (…) tipo: ’Ah, eu vou vender uma caneca com desenho do Garfield’. Se não tem licença, você não pode vender.”
Sobre prints:
“Não cabe ao evento dizer o que pode (…) até porque a gente não é detentor destas licenças” e “historicamente as editoras têm sido lenientes com este tipo de coisa (…)”

Ainda assim, alguns artistas veem um certo incômodo na prática.

“Acho um tiro no pé fazer fanart. Pode ser bom em um primeiro momento, mas acho um investimento meio burro a longo prazo. Mas nos casos de pessoas que gostam demais de fazer fanart, proibi-las de fazerem isso seria errado também.”
Mika Takahashi

 

“Acho bem delicado, e eu mesma não me sinto super confortável em vender. [Por outro lado] é um produto que não veríamos em outras condições. Por exemplo, uma mulher maravilha no traço da Lu Caffagi. É um produto único pelo estilo, também tem seu mérito e grande valor pro público.”
Fernanda Nia

Aqui vão alguns pontos sobre ambos os lados da discussão:

Prints são muito mais vantajosos no aspecto monetário para os artistas porque um trabalho de algumas horas gera um produto com uma margem de no mínimo 200% de lucro. E geralmente, isso não se repete na venda da HQ que leva meses ou até anos de produção.

“Pra mim é negócio. Tenho que vender pra manter meu negocio funcionando. Escolher o que vender, com uma oportunidade dessas, gente disposta a comprar sua arte e recusar por princípios é tolice.”
Hiro Kawahara

Como a maior parte do público nacional em eventos ainda é inexperiente, muitos ali preferem prints de personagens famosos a arriscar conhecer um novo universo através de um quadrinho desconhecido. O print serve como um “certificado” de fã. Vários visitantes chegam às mesas dispostos a pagar o dobro pelo print do que gastaria com a compra do quadrinho.

“A venda de print é um complemento de renda e não é uma busca menos honrosa que a venda de quadrinhos. Assim como o brasileiro não tem o costume de ler, ele também não tem o costume de apreciar arte ou comprar arte e pendurar na parede de casa. O print é o primeiro passo pra muita gente desse consumo de arte.”
Leonardo Maciel

A compra do print não valoriza o artista. Em geral, o visitante não quer um print do Deadpool “pelo Herbert Berbert”, ou um print de LoL “pela Luiza Mcallister”. O importante é apenas o tema. Não são raros os visitantes passando de mesa em mesa perguntando: “Tem print do Homem-Aranha?”, “Tem print da Mulher-Maravilha?”, etc.

“Print vender mais que HQ acaba desanimando a produção do autoral. Pra mim seria legal que o material autoral ainda tivesse mais relevância e foco. [Mas] não dá pra ficar só no romance ideológico da coisa. Infelizmente.”
Ricardo Tokumoto

É sabido como quadrinistas e ilustradores tem dificuldade em obter lucro com a produção autoral. Seria justo tirar uma das únicas oportunidades que são geradas com a venda dos prints? Mas será que esta “oportunidade” não pode prejudicar o fomento do mercado de quadrinhos a médio/longo prazo?

“Entre os artistas tem uma visão muito romantizada e pouco comercial. Dizem que ‘vai ofuscar sua produção autoral’. Ora, todo mundo quer vender seu quadrinho autoral e não só o print. Enquanto isso não acontece, use todos os artifícios para chamar atenção.”
Paulo Borges

Se todos os quadrinistas pararem a produção dos prints, não estariam neglicenciando uma demanda do mercado? E mesmo assim, como proceder com artistas que vão para eventos só com prints para vender, sem nenhum quadrinho?

“Acho complicado qualquer tentativa de coibir isso. Se a gente limitar por isso, a gente tira os ilustradores do evento. E os eventos já foram descobertos por eles e não podemos pedir que eles se retirem. Pelo contrário, a gente quer que mais gente participe dos eventos. E isso tudo passa por uma educação do público. E quem educa é o bolso.”
Sidney Gusman

 

“É chato ver que seu print do Batman tá vendendo melhor que seu quadrinho. Mas isso não significa necessariamente que ele está roubando as vendas do mesmo.”
Leonardo Maciel

 

“Não acredito absolutamente que a venda dos prints prejudique o quadrinista a longo ou médio prazo. Sem prints os quadrinhos venderão a mesma coisa. É um GRANDE erro acreditar que, se o autor não vender os prints ele vai vender mais quadrinhos. Simplesmente ele não vai vender nada.”
Hiro Kawahara

Como se pode ver, as opiniões sobre a comercialização dos prints em si são bem diversificadas. Mas quando se trata da compra exclusiva de prints, onde o quadrinho fica totalmente de fora, acredito que falo em nome de todos os autores que é como optar pelo cartão postal de um lugar, mesmo que a passagem para visitá-lo esteja no mesmo valor. 🙂

  • Acho que os prints podem ser atrativos e fazer com que as pessoas se aproximem da mesa para apreciar o trabalho. Cabe ao autor mostrar as possibilidades dos quadrinhos que tem disponível. Formar seu público é uma das funções do quadrinista que visa ser profissional. Na ultima CCXP comprei muitos quadrinhos e apenas um print, que na verdade era presente. Mas o mais legal era chegar nas mesas e perceber como alguns quadrinistas falavam com paixão de seus trabalhos e isso me encantava. Porém em algumas mesas se eu não demonstrasse interesse nos quadrinhos eles não era oferecidos. Vou citar um exemplo superpositivo do Eric Peleias que mostrou cada um dos seus quadrinhos, fez uma breve sinopse de cada um e me convidou a conhecê-los. A apresentação dele foi impecável. Trabalhando a anos com publicidade e marketing, e frequentando eventos comerciais, deixo um conselho final: Abordagem é tudo. Você precisa ler as impressões da pessoa que está em sua mesa e perceber a receptividade: se ela estiver aberta a conhecer mais de seu trabalho, apresente, converse, pergunte sobre os gostos da pessoa, porém se ela não estiver muito receptiva a seu trabalho, mas estiver interessada num print, bottom, adesivo ou outros produtos secundários, dê a ela o que ela procura. Se ela sair satisfeita, terá uma boa chance de se interessar futuramente por seu trabalho autoral.

  • Laz Muniz

    Excelente texto, Brão! É quase tudo o que eu sempre digo e repito, sempre! Você expressou muito bem meu posicionamento à respeito.
    Valeu essa valiosa contribuição, meu brother!

  • Thiago Lehmann

    ótima abordagem ao assunto, de forma neutra e expondo diversos pontos de vista.
    ao meu ver ( e da Luiza McAllister ) as prints/fanarts fazem parte do universo das Cons e consideramos isso muito legal! Muita gente tem seu primeiro contato com os artistas nacionais em busca “daquele print do Homem-Aranha” e acabam descobrindo estilos, personagens e histórias diferentes. Muita gente bate na nossa mesa em busca de algo específico e os olhos caem no nosso quadrinho Plumba. Nós incentivamos a galera a pegar pra ver, ler , ficar a vontade.. e acabam se interessante e levando. Isso acontece também com as nossas prints autorais.

    É um processo lento de educar o público de que “existe vida além da cultura pop tradicional”, mas podemos garantir que, ano após ano conseguimos fidelizar um publico que está interessado nas nossas coisas autorais, mas nos descobriram por causa de uma print/ fanart.

    Sem contar que, apesar de adorar os trabalhos autorais dos nossos colegas, é sempre incrível ver aquele Steven Universe no traço do artista que você admira. Existe uma conexão muito forte nesse tipo de coisa.
    Para não me alongar muito: acredito que a chave está no balanço entre os dois. Um não vai matar o outro. Como o mestre Hiro disse: não é a fanart que vai decidir se o cara vai comprar a sua HQ ou não. O negócio é dar liberdade para cada artista explorar os eventos da forma que se sintam mais confortáveis e capazes de prover uma arte que o público tem prazer de consumir 🙂

  • Daniel Wu

    acho esta discussao otima e sempre me agrega mt, mesmo não fazendo quadrinhos e mal fazeno fanart. Minha migalha sobre o assunto de publico deixar d comprar HQ pra comprar fanart é: Eu nunca consumi quadrinhos. Hj compro quadrinhos do pessoal q conheci atraves de ilustração (fanart ou nao). Acho que quem ja gosta de HQ, vai pra HQ direto, é publico garantido. Quem ainda nao gosta, a fanart é uma porta de entrada. Tipo restaurante vegano aqui perto de casa: fui pq tinha feijoada (pq ja conheo feijoada, gosto e queria provar a versao deles). Gostei e hj vou quase todo dia, até pra comer jaca com quiabo e tofu (q é super bom alias). 🙂 Se divulgassem só prato autoral ia ser mais dificil atrair.

  • Guilherme Bandeira

    Comparo sempre com as bandas: Algumas fazem “covers” de outras bandas famosas, mas continuam criando um trabalho autoral. Acho que o segredo é equilibrar isso e mostra a personalidade. 🙂

  • Will Sideralman

    Vender print não é o meu foco mas levei no ano passado. Não vendi muitas porque não me esforcei o tanto que me esforcei pra vender meus quadrinhos, que são o meu foco. Nâo dá pra tirar os ilustradores do evento como bem observou o Sidney Gusman, mas entendo quando uma pessoa que faz quadrinhos se sente preterida em relação a uma que só vai levar prints, já que o conceito de um Artists’ Alley está ligado à produção de histórias em quadrinhos. Não seria o caso de estudar um novo formato para o espaço?
    Trato a print mais como um brinde, uma curiosidade a um gosto pessoal de alguém que quer ter um personagem conhecido no meu estilo de desenho.
    E, muito bom o texto Brão.

  • Marcus Penna

    Copiado da postagem no FB…

    Francamente, acho que absolutismos “NÃO PODE”, “VAI ACABAR COM O QUADRINHO AUTORAL”, “PODE TUDO”, “VAMOS MORRER DE FOME SEM PRINT” deviam ser ignorados por qualquer discussão séria.

    Claro, ninguém está soltando esses absolutismos, mas me parece que existe um certo entrincheiramento quanto às posições.

    No fim do dia: enquanto for viável economicamente, vai ter de tudo. Vi compradores na CCXP só querendo quadrinho autoral, e vi compradores só querendo fan art. Uma boa parte compra os dois em maior ou menor escala.

    Mas o que eu vi mesmo foi gente gastando 3000+ reais em action figures e passando no AA pra ver se gastava o troco. Sinceramente, acho que é um pouco de falta de noção da realidade dizer que “print do Bátima tira vendas do meu quadrinho pseudo-filosófico-existencial” quando o sujeito que tá passando na frente acabou de torrar 500 reais numa caixa amassada com um Waluigi em PVC. Eu nunca faria isso, mas o dinheiro também não é meu.

    Dito isso, acho que foram levantados alguns pontos muito bons, sobretudo no tocante a cultivar um trabalho próprio (fato: pra que promover o trabalho dos outros quando você pode promover o seu?) e no fato de que as empresas simplesmente não podem declarar “fan art tá liberada” sob o risco de perder controle sobre as suas criações ou declarar “fan art tá proibida” e ter um pepino gigante em mãos pra resolver (afinal, não vale nada proibir se você não tem como forçar).

    Em teoria, ninguém poderia nem fazer fan art “só por diversão”, independente de vender ou não. Se for interpretar a lei ao pé da letra, não acredito que exista espaço pra isso.

    Mas esse fato não impede da DC Comics vender revistas com capas em branco com o INTUITO específico de que se desenhe fan art. Certamente não tem nenhum aviso impresso dizendo “você só pode desenhar por diversão ou só pode desenhar de graça. Se vender a gente te processa”. Eu recebi pelo menos umas 3 ou 4 ofertas de desenhar em capas do tipo durante a última CCXP (todas recusadas: eu ia cagar a capa da pessoa e ia acabar saindo no prejuízo).

    A verdade é que não é vantajoso pra nenhum dos lados estabelecer linhas duras do que pode ou não pode. A linha atual difusa “Não iremos mandar um advogado mal educado atrás da sua bunda enquanto você não estiver fazendo isso em escala industrial” me parece que é a regra não escrita dos AAs do mundo inteiro.

    E claro, se começar a rolar muito “produzir em escala industrial”, vamos começar a ver mais incidentes como o da Paramount em relação aos fan films de Star Trek. Eles TIVERAM que estabelecer as regras, e embora elas não pareçam legais pros caras que estavam abrindo um FUCKING ESTÚDIO só pra fazer um fan film, me pareceram bastante razoáveis em geral.

  • Ruis Vargas

    Brão, ótimo texto com perspectivas bem variadas sobre o tema. Peço sua licença para me manifestar. A partir da minha restrita posição, ao observar tantos pontos de vista, acredito que a questão não se restrinja a “sim” ou “não” para os impressos únicos (prints). Se pensarmos sob essa ótica, teremos uma guerra civil como no universo Marvel. Minha opinião, se for útil para algo, é a perspectiva do autor. E, neste viés, desemboca na concepção que sigo a respeito de fazer a tal arte sequencial. Sobre minha vida com os quadrinhos, a minha experiência foi publicar e, posteriormente, viver um lapso de 11 anos afastado desse universo. Abandonei os quadrinhos por ter, à época, uma visão talvez incompatível com a realidade. Voltei aos quadrinhos em 2013 e o que me motivou foi amadurecer em mim a necessidade de materializar narrativas gráficas. E assim construir um trabalho que me satisfaça artisticamente e que tenha sua própria coerência. Alguém vai dizer que eu deveria buscar “viver dos quadrinhos”, o que significa ganhar dinheiro suficiente para tanto. Evito, de imediato, alimentar essa perspectiva. Dirijo minha energia para meu trabalho, minha forma subjetiva de construir narrativas, obviamente influenciado pela tradição das artes visuais (quadrinhos, ilustração, cartum, design gráfico etc.), construir público leitor etc. E resolvo tudo com o seguinte enunciado: faço quadrinhos porque preciso fazer quadrinhos, não porque quero fama, dinheiro ou mudar minha vida (apesar de, inconscientemente, desejar isso)!
    Sobre prints, primeiramente, tenho a postura de não produzir artes com outras cenas e personagens que não pertençam ao meu universo, simplesmente porque vou aos eventos para vender meu trabalho. Oferecer trabalho alheio geraria, em minha mesa, uma autofagia, além de deixar implícita uma certa insegurança sobre a validade do que desenho e escrevo. Convivo com essa insegurança diariamente, na verdade. Tempo é algo precioso para mim, então despender minha energia em produzir material alheio só diminuiria meu pequeno estoque de tempo para aprimorar meu próprio trabalho.
    Segundo, penso que o quadrinho autoral é o terreno possível de liberdade criativa e editorial. Alimentar esse território é permitir a geração experiências narrativas à margem do mainstream – o que não significa necessariamente um embate o bem o mal, entenda. O mainstream já está consolidado, possui uma gigantesca estrutura de marketing impulsionando seus produtos e minha visão sobre esses produtos torna-me insignificante nesse cenário. Não ganho nada em validar Batman ou Thor. Vamos em busca da diversidade!
    Terceiro, vejo com ressalvas o cenário dos prints alheios, porque cria-se basicamente a oferta de um produto com um aparato e poder de sedução e persuasão muito superior ao meu trabalho autoral. Os eventos de quadrinhos são o território ideal para a formação de leitores. E hoje enxergo esta como nossa maior luta. É fundamental destacar que vivemos num país essencialmente analfabeto.
    Quarto, existe uma grande diferença entre produtos e artes produzidas em série. Há uma distância gigantesca! Canecas não são gravuras. E releitura de temas clássicos é uma tradição milenar! Miró, por exemplo, pintava visões suas de quadros holandeses (ver: Interior Holandês III, 1928. Miró. A Família Feliz, de Jan Stee). Deveríamos nos espelhar na feira Tijuana, da Galeria Vermelho, ou mesmo na Feira Plana. Nesses eventos encontramos a simbiose entre artes gráficas, trabalho autoral, narrativas e ilustrações permeados por fetiche. Sim, fetiche. O sujeito compra uma publicação por milhares de reais, muitas vezes, apenas pela aura que cerca aquele objeto. O livro deixa de ser um apanhado de folhas e torna-se um exemplar de arte! Honestamente, há entre nós quadrinistas possuidores de artes plasticamente sedutoras que cativariam facilmente muitos compradores da chamada “arte”.
    Lembro da primeira CCXP. Antes do início, havia pessimismo, poucos acreditavam que alguém pagaria cento e lá vai pedrada de reais no ingresso e ainda perderia tempo e dinheiro com artistas desconhecidos. No final do evento, estávamos deslumbrados com o resultado, pois o público descobriu nossa área e tudo saiu melhor do que o esperado. Como oferecemos nossos trabalhos, eles levaram nossos trabalhos.
    Tenho vendido meus “prints” nos eventos com algum sucesso. A cada exemplar nas mãos de alguém, penso que a pessoa está levando minha arte em sua totalidade.
    Enfim, pode parecer purismo, romantismo, alienação, falta de senso prático, mas, se eu não acredito em mim e em meu trabalho, quem irá acreditar?

    P.S.: me incomodo sim com o fato de ter vizinhos que vendem única e exclusivamente botões, caderninhos e outros mimos e absolutamente nada, nada de quadrinhos. Nunca esqueçamos que a CCXP é um evento, como diz o nome, sobre comic.

    • Caramba, @ruisvargas:disqus. Muito obrigado por contribuir tanto assim pra discussão. Excelente texto! 🙂

  • Marcus Penna

    (Copiado da postagem na discussão do FB. Editei ligeiramente pra melhorar a linguagem em alguns pontos)

    Francamente, acho que absolutismos “NÃO PODE”, “VAI ACABAR COM O QUADRINHO AUTORAL”, “PODE TUDO”, “VAMOS MORRER DE FOME SEM PRINT” deviam ser ignorados por qualquer discussão séria.

    Claro, ninguém está soltando esses absolutismos, mas me parece que existe um certo entrincheiramento quanto às posições.

    No fim do dia: enquanto for viável economicamente, vai ter de tudo. Vi compradores na CCXP só querendo quadrinho autoral, e vi compradores só querendo fan art. Uma boa parte compra os dois em maior ou menor escala.

    Mas o que eu vi mesmo foi gente gastando 3000+ reais em action figures 😛 e passando no AA pra ver se gastava o troco. Sinceramente, acho que é um pouco de falta de noção dizer que “print do Bátema tira vendas do meu quadrinho pseudo-filosófico-existencial” quando o sujeito que tá passando na frente acabou de torrar 500 reais numa caixa amassada com um Waluigi em PVC. Eu nunca compraria um treco desses, mas o dinheiro também não é meu.

    Dito isso, acho que foram levantados alguns pontos muito bons, sobretudo no tocante a cultivar um trabalho próprio (fato: pra que promover o trabalho dos outros quando você pode promover o seu?) e no fato de que as empresas simplesmente não podem: declarar “fan art tá liberada” sob o risco de perder controle sobre as suas criações OU declarar “fan art tá proibida” e ter um pepino gigante em mãos pra resolver (afinal, não vale nada proibir se você não tem como forçar).

    Em teoria, ninguém poderia nem fazer fan art “só por diversão”, independente de vender ou não. Se for interpretar a lei ao pé da letra, não acredito que exista espaço pra isso.

    Mas esse fato não impede da DC Comics vender revistas com capas em branco com o INTUITO específico de que se desenhe fan art. Certamente não tem nenhum aviso impresso dizendo “você só pode desenhar por diversão ou só pode desenhar de graça. Se vender a gente te processa”. Eu recebi pelo menos umas 3 ou 4 ofertas de desenhar em capas do tipo durante a última CCXP (todas recusadas: eu ia cagar a capa da pessoa e ia acabar saindo no prejuízo).

    A verdade é que não é vantajoso pra nenhum dos lados estabelecer linhas duras do que pode ou não pode. A linha atual difusa “Não iremos mandar um advogado mal educado atrás da sua bunda enquanto você não estiver fazendo isso em escala industrial” me parece que é a regra não escrita dos AAs do mundo inteiro.

    E claro, se começar a rolar muito “produzir em escala industrial”, vamos começar a ver mais incidentes como o da Paramount em relação aos fan films de Star Trek. ELES tiveram que estabelecer as regras, e embora elas não pareçam legais pros caras que estavam abrindo um FUCKING ESTÚDIO só pra fazer um fan film, me pareceram bastante razoáveis em geral.

  • Texto bem pontuado. Vejo essa discussão como coisa de mercado pequeno.
    O nosso público, como lembrado pelo Brão, é super imaturo ainda e está começando a lidar agora com a questão da aquisição de arte, e devemos isso muito ás indústrias do pop massificado. Recriar símbolos empáticos ao público é essencial nessa fase, mesmo para que essas novas pessoas entrem em contato com o mundo dos quadrinhos/ilustração. É um chamariz. Essa mania do nosso mercado de querer ficar na penumbra do indie é um tiro no pé, sempre foi. Temos vários bons artistas saindo das sombras mesmo por conta da MSP, por exemplo, e nem por isso é algo errado. O profissional deve entender-se como produtor, e se é trabalho se vende o que está sendo pedido e ponto. Querer levar essa nossa arte com pensamento de galerista é um absurdo na realidade atual, visto que nenhum de nós tem ainda um grande nome ou público fiel.
    Acredito que a melhor forma de lidar é aumentar a produção autoral e manter o mercado das fanarts, mas deixando que o público faça o trânsito por si só. Ainda nem sabemos como o nosso público realmente se comporta e já pretendemos moldar conteúdo? É muito estranho falar de singularidade em um segmento ainda não segmentado.

  • Diego Sanches

    (repost do FB) Cara, ganhar dinheiro com propriedade intelectual alheia é pirataria. Isso é um fato.
    Se você se sente bem com isso, mesmo a empresa detentora dos direitos fazendo vista grossa, aí vai de cada um.

    Pessoalmente, eu vou à feiras para divulgar meu trabalho com o Quadcomics. Não me interessa em nada vender material criado por outros. Para isso, já trabalho para meus clientes. Se eu fizer um desenho do Batman, quem vende é o Batman, não eu.

  • Caio Santos

    Por mim ja está errado chamar de uma coisa de Artists alley e ja ter esse preconceito contra tudo que não seja um quadrinho, principalmente no Brasil onde comiccon não é uma tradição, a pessoa comum ja ve o nome e o conceito dela de arte são pinturas ou reproduções, como o Hiro disse, ninguem vai em uma Artists Alley comprar quadrinho sem ja estar planejando isso.
    Muito pouca gente tem recursos e a paciencia de se arriscar em comprar um quadrinho inteiro e talvez se comprometer com versões posteriores no meio de um evento enquanto fanarts ou mesmo pinturas/desenhos autorais são objetivos e seguros pra quem compra, e inofensivos pro mercado dos quadrinhos em si