Print ou quadrinho? Ou os dois?

Dois personagens colando cartazes com os dizeres "proibido afixar cartazes". Um deles está com o pé dentro do balde de cola, o outro segura uma vassoura e o encara com raiva.

Print, pôster, cartaz, enfim. Independentemente da forma que você chame, a discussão sobre a venda deste material em eventos de quadrinhos tem se tornado frequente entre os autores.

Antecipo que a intenção deste texto não é trazer conclusões, mas ser um pontapé no debate. E é bom deixar claro também que esta reflexão não se aplica aos casos de prints autorais como por exemplo, o Vitor Cafaggi fazer um print do Valente, ou a Bianca Pinheiro do Bear. Mas sim de prints de figuras consagrados na cultura pop como super-heróis e personagens de filmes, séries, jogos, etc.

Enquanto um lado acredita que a longo prazo a cultura de vendas de prints em eventos pode matar a produção de quadrinhos, o outro lado não vê motivos para abrir mão de um material lucrativo em função de “romantismo”.

Explico: É notável o apelo que os chamados prints de fanarts, cartazes feitos com personagens da cultura pop, tem para com os visitantes dos eventos de quadrinhos. É comum vermos pessoas que preferem gastar algumas dezenas de reais em prints do que em quadrinhos. E enquanto alguns artistas procuram tirar proveito do movimento para fazer dinheiro, outros tem receio que a cultura da produção autoral se desmotive em função dessa prática.

“Não entendo exatamente o que os compradores dos prints estão atrás, já que é uma arte reproduzida, sem sequer uma aura de uma arte original, comissionada.”
Guilherme Kroll

 

“Eu tento fazer sempre prints de personagens que já estão em domínio público ou de imagens minhas mesmo. Mas também não acho absurdamente grave uma fanart.”
Rebeca Prado

 

“Acho algo normal, da mesma forma que cantores e bandas fazem cover por exemplo. Faz parte do crescimento do artista, de como ele se mostra para o publico e os possíveis contratantes.”
Herbert Berbert

 

“Eu fico incomodado quando a pessoa leva um print e não meu trabalho autoral. O foda que se o print não for uma fanart, dificilmente a pessoa leva.”
Vencys Lao

 

“Não temos como educar o consumidor a só comprar quadrinhos, o fato é que se negligenciarmos os prints, simplesmente vamos deixar de ganhar um dinheiro que é necessário para seguir em frente. Eu pessoalmente acho isso um purismo.”
Hiro Kawahara

E sobre o aspecto legal da coisa, é bom deixar claro como o mercado enxerga a coisa. Há o entendimento por parte da maioria dos eventos de quadrinhos em diferenciar a impressão da arte em papel e a aplicação em outros produtos.

Em entrevista à vigésima sexta edição do podcast Confins do Universo no exato minuto 60, Ivan Freitas, um dos organizadores da CCXP, diz sobre produtos:
“Não pode ter pirataria (…) tipo: ’Ah, eu vou vender uma caneca com desenho do Garfield’. Se não tem licença, você não pode vender.”
Sobre prints:
“Não cabe ao evento dizer o que pode (…) até porque a gente não é detentor destas licenças” e “historicamente as editoras têm sido lenientes com este tipo de coisa (…)”

Ainda assim, alguns artistas veem um certo incômodo na prática.

“Acho um tiro no pé fazer fanart. Pode ser bom em um primeiro momento, mas acho um investimento meio burro a longo prazo. Mas nos casos de pessoas que gostam demais de fazer fanart, proibi-las de fazerem isso seria errado também.”
Mika Takahashi

 

“Acho bem delicado, e eu mesma não me sinto super confortável em vender. [Por outro lado] é um produto que não veríamos em outras condições. Por exemplo, uma mulher maravilha no traço da Lu Caffagi. É um produto único pelo estilo, também tem seu mérito e grande valor pro público.”
Fernanda Nia

Aqui vão alguns pontos sobre ambos os lados da discussão:

Prints são muito mais vantajosos no aspecto monetário para os artistas porque um trabalho de algumas horas gera um produto com uma margem de no mínimo 200% de lucro. E geralmente, isso não se repete na venda da HQ que leva meses ou até anos de produção.

“Pra mim é negócio. Tenho que vender pra manter meu negocio funcionando. Escolher o que vender, com uma oportunidade dessas, gente disposta a comprar sua arte e recusar por princípios é tolice.”
Hiro Kawahara

Como a maior parte do público nacional em eventos ainda é inexperiente, muitos ali preferem prints de personagens famosos a arriscar conhecer um novo universo através de um quadrinho desconhecido. O print serve como um “certificado” de fã. Vários visitantes chegam às mesas dispostos a pagar o dobro pelo print do que gastaria com a compra do quadrinho.

“A venda de print é um complemento de renda e não é uma busca menos honrosa que a venda de quadrinhos. Assim como o brasileiro não tem o costume de ler, ele também não tem o costume de apreciar arte ou comprar arte e pendurar na parede de casa. O print é o primeiro passo pra muita gente desse consumo de arte.”
Leonardo Maciel

A compra do print não valoriza o artista. Em geral, o visitante não quer um print do Deadpool “pelo Herbert Berbert”, ou um print de LoL “pela Luiza Mcallister”. O importante é apenas o tema. Não são raros os visitantes passando de mesa em mesa perguntando: “Tem print do Homem-Aranha?”, “Tem print da Mulher-Maravilha?”, etc.

“Print vender mais que HQ acaba desanimando a produção do autoral. Pra mim seria legal que o material autoral ainda tivesse mais relevância e foco. [Mas] não dá pra ficar só no romance ideológico da coisa. Infelizmente.”
Ricardo Tokumoto

É sabido como quadrinistas e ilustradores tem dificuldade em obter lucro com a produção autoral. Seria justo tirar uma das únicas oportunidades que são geradas com a venda dos prints? Mas será que esta “oportunidade” não pode prejudicar o fomento do mercado de quadrinhos a médio/longo prazo?

“Entre os artistas tem uma visão muito romantizada e pouco comercial. Dizem que ‘vai ofuscar sua produção autoral’. Ora, todo mundo quer vender seu quadrinho autoral e não só o print. Enquanto isso não acontece, use todos os artifícios para chamar atenção.”
Paulo Borges

Se todos os quadrinistas pararem a produção dos prints, não estariam neglicenciando uma demanda do mercado? E mesmo assim, como proceder com artistas que vão para eventos só com prints para vender, sem nenhum quadrinho?

“Acho complicado qualquer tentativa de coibir isso. Se a gente limitar por isso, a gente tira os ilustradores do evento. E os eventos já foram descobertos por eles e não podemos pedir que eles se retirem. Pelo contrário, a gente quer que mais gente participe dos eventos. E isso tudo passa por uma educação do público. E quem educa é o bolso.”
Sidney Gusman

 

“É chato ver que seu print do Batman tá vendendo melhor que seu quadrinho. Mas isso não significa necessariamente que ele está roubando as vendas do mesmo.”
Leonardo Maciel

 

“Não acredito absolutamente que a venda dos prints prejudique o quadrinista a longo ou médio prazo. Sem prints os quadrinhos venderão a mesma coisa. É um GRANDE erro acreditar que, se o autor não vender os prints ele vai vender mais quadrinhos. Simplesmente ele não vai vender nada.”
Hiro Kawahara

Como se pode ver, as opiniões sobre a comercialização dos prints em si são bem diversificadas. Mas quando se trata da compra exclusiva de prints, onde o quadrinho fica totalmente de fora, acredito que falo em nome de todos os autores que é como optar pelo cartão postal de um lugar, mesmo que a passagem para visitá-lo esteja no mesmo valor. 🙂